segunda-feira, 12 de março de 2012

Olhares da calçada

De repente você é expelida para fora do ônibus por um tropeço. Assim você desperta da náusea para sentir o vento fresco que avisa que é noite, e todos saíram enquanto você deseja chegar.
Consegue ver os que sentaram para beber na calçada, mesmo sabendo que a chuva logo vem.
A criança deveria já estar na cama, mas a noite fresca permite que ela e o cachorro brinquem até dormirem em qualquer canto, juntos.
Há sorrisos nas moças, valendo duzentos reais. As roupas são curtas e justas, para exibir a qualidade do produto.
Pela janela do restaurante japonês vejo as rabugentas intelectuais, com suas lentes grossas, ocultando o dia que aceitaram não ser bonitas.
E mesmo com a porta amassada ele estaciona em local proibido sobre a calçada, desviando do rapaz que procura antecipadamente as chaves de casa, para ter certeza que tem para onde voltar.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Tentei apagar o fogo com lágrimas

Chorei ao olhar o que o Mundo tinha a dizer.
Chorei pelas mãos curtas demais para estancar tanto sangue.
Acima de tudo, senti vergonha de tudo que engoli.
Até mesmo as lágrimas precisei engolir, o Mundo mandou.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Partida

Quando você se for encherei o peito de areia, para ocupar a sua presença.
Quando fechar a porta meus olhos encharcados regarão plantas e crianças de verão.
Perderei o caminho de casa, para não te esperar no silêncio do trânsito que grita da janela.
Quebrarei sete espelhos, para não te ver nos meus olhos tristes.

O tempo passará como a doença.
A noite virá como castigo.
Cuspirei nos casais que jantam do alto das minhas lamurias.
Vomitarei todo rancor apenas para quem não merece.

Quando voltar vai encontrar a louça por lavar.
Quando chegar tudo estará escuro, o sol não reconhece o lugar.
Quando entrar verá que as baratas comeram seu gato.
E eu terei partido para enterrar aquela que morreu de saudade.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Dia de Manoela

Manoela estava de pé no ônibus, espremida entre dois homens anônimos.
O ônibus mostrava que os freios eram novos, lançando Manoela contra os demais passageiros.
As trombadas combinavam com os pensamentos do seu dia.
Seu primeiro dia no escritório iniciou cheio de esperança, deixando para trás a lanchonete lotada aberta de domingo a domingo. Não sabia havia alguns anos o que eram férias, direitos humanos ou respeito.

Chegou pela manhã vinte minutos antes, para apresentar sua pontualidade de primeiro dia. Chovia muito e nenhum outro funcionário chegou antes, esperou vinte e quatro minutos na chuva forte, agarrada a sua pequena sombrinha de estrelinhas. Sua sapatilha coleção verão se despediu ali.
Sentou em sua nova mesa, atenderia os telefonemas por enquanto. Sem muito o que fazer, lhe pediram que fosse arrumar os armários e lavar os carbonos. A última ordem era uma piada interna, que cumpriu obediente. Manoela era a loira do carbono agora.
Durante a manhã passou algumas ligações erradas e acabou desligando por acidente enquanto falava com o principal cliente da empresa.

Procurando um diálogo Manoela perguntou à gerente sobre o tampão que usava no olho, se tratava de uma cirurgia no olho esquerdo? A gerente fechou seu olho livre para informar que só possuía um deles. “O importante é ter um deles que enxergue bem”, respondeu Manoela prontamente, sentindo o peso da estupidez de sua resposta.
Começou um difícil jogo de paciência spider, usando quatro nipes. Parou o jogo ao notar que a gerente de um olho só sugeria o movimento do sete de paus em sua jogada.
Ao buscar água tentou conversar com a diarista, normalmente elas gostam de conversar e sabem tudo sobre a empresa. Esta era uma senhora bem religiosa, sem papo afirmou que apenas trabalhava ali e falar de pessoas era coisa para as revistas de novelas e gente do diabo.

Sentiu sono, um sono irresistível lendo o histórico da empresa e seus cases de maior sucesso. Seu chefe flagrando seu bocejo avisou que havia café na cozinha. Manoela achou de bom tom tomar realmente uma xícara, o café estava frio, decidiu esquentá-lo no microondas. Este estalou três vezes soltando uma negra fumaça. Todos os funcionários vieram olhar com atenção seus olhos cheios de vergonha. Precisaram sair para o quintal e esperar o cheiro forte passar. Manoela aproveitou a saída para fumar seu primeiro cigarro do dia. Ao jogar sua bituca pro alto, incrivelmente acertou o cabelo da gerente caolha, apesar do todo estardalhaço, esta perdeu apenas uma mecha de cabelo.
As horas pareciam sem fim, vivia um purgatório da vergonha. Nem mesmo a lembrança antiga do dia em que fez suas necessidades nas calças na segunda série superava este dia. Ou apenas precisava do colo da mãe para dizer que estava tudo bem, que ninguém mais riria dela.
Às seis horas juntou suas coisas, recolheu sua caneca da sorte e o gatinho japonês da fortuna da nova mesa. Enquanto sua colega de trabalho corria ao banheiro Manoela correu para a saída, sem ousar olhar para trás.

E ela lá estava, dentro do ônibus, espremida entre sovacos suados, remoendo seus erros. Uma senhora sentada na sua frente não parava de tossir. Manoela sentia o seu próprio cheiro ruim de roupa molhado, resultado da chuva da manhã.
Seu celular tocou, número privado, atendeu com sua nova voz rouca de choro. Seu novo antigo chefe falou diretamente “por que saiu sem conversar comigo?” Manoela respondeu que estava feliz em sair viva de lá.
O chefe, depois de rir por um longo tempo com sua voz fina, pediu a ela para que voltasse no dia seguinte para conversarem com calma sobre tudo Ele até mesmo lhe desejou boa noite. Parece que não a odiava.
Manoela desligou e conseguiu animar-se, talvez as coisas melhorassem a partir daquela ligação, nenhum dia precisa ser completamente infeliz, depois de tantas coisas ruins algo certamente viria.

Assim que guardou o celular na bolsa molhada, a velha a sua frente tossiu mais forte e finalmente vomitou nas roupas de Manoela. Apesar de faltarem dez pontos para chegar em sua casa decidiu descer no próximo ponto, caminhar e curtir a noite estrelada.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Frio de freira

O frio chegou calmo como sempre. Assoviando sem pressa, passou pela paisagem derrubando
as últimas folhas valentes.
Levantou alto o chapéu do velho, que apenas saia de casa para receber sua aposentadoria. Este lamentou a distância alcançada pelo chapéu. Pobre de suas costas.
Não se esqueceu de bagunçar o cabelo da garota de treze anos, com vergonha da blusa que
usava naquele dia apenas para agradar a avó.

O frio experimentou o gosto de tudo e todos.

Gostou de lamber com seu vento a velhinha que cheirava à hortelã. A velha virgem não ficou confortável com a situação.
Seguia Assoviando feliz buscando arrepiar jovens garotas bonitas.
Entrou por ruas, se encurralou em becos e passou pela feira de comida e artesanato.
Desastrado derrubou algumas estátuas de santos, fugiu sem pedir desculpas.

Ao cruzar com a freira jovem, porém robusta como mãe, assoviou todas as coisas obscenas que sabia. A freira, indignada com o frio, sentiu o sangue ferver.
Esquecendo dos seus juramentos a freira o frio xingou, sem pudor ou inocência. Mostrando tudo que já ouviu antes do celibato.
O frio respondeu a freira com uma boa olhada por baixo da saia, atestando que anáguas ainda existiam. Não apenas o frio, mas também dois pedreiros que passavam cansados puderam o fato conferir.
Os pêlos da perna não depilada se arrepiaram, além de um leve prazer quase desconhecido.
Sem admitir claramente a freira desejou o arrepio novamente, já que se tratando de um artifício do frio não caracterizava pecado.
O ar gelado ruborizava suas faces, deixando-a até mesmo charmosa. Chamou pelo frio a freira ansiosa.
O frio chegou para ficar por três meses, seu vento seguiu adiante prometendo retornar no dia seguinte. Apenas pediu calcinha mais atraente.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Olhos abertos

Estávamos juntos, andando longe um do outro.
Tinha névoa por ali, apesar do sol do meio dia.
De todos os lados janelas nos vigiavam descaradas, mostrando seus interiores cheios de
sombra.
Não vi rua por perto, apenas janelas e suas paredes.
De algum lugar aquela música tocou. Era clara e alta, nunca fomos apresentadas antes.
“você ouviu? Como não? Esta em toda parte vinda de cada canto.”
Notei então seus olhos assustados e cheios de pena. Eles me diziam que não havia som algum
ali. Nada real.
Como se a música pudesse me engolir você me arrastou dali depressa, para dentro de algum
lugar. Não sei como entramos, não havia porta. Simplesmente estávamos dentro.
Tudo parecia frio e limpo, como a doença exige. Você me deixou no centro daquela sala vazia,
de pé, sem nada nas mãos.
Notei uma única outra pessoa ali além de nós. Ela me notou também.
Ela, e não você, veio na minha direção. E já segurava meus braços assim que notei seu hálito
perto.
Com raiva gritava com seus olhos. Seus lábios se moviam em vão, eu não ouvia. Assim como a música apenas eu a vi ali, me segurando com desgosto.
Você, que devia ser a minha realidade, me deixou sozinha com ela. Apenas sentiu pena do
meu mundo.
Continuei ali, balançando no ódio dela. Um ninar louco que me fez acordar e chorar.


segunda-feira, 13 de junho de 2011

Despedida

Despertei do desjejum.
Com o estômago cheio de amor.
E atrasada pelos seus olhos lindos e comuns.


Troquei um minuto por trinta segundos cheios de ti.
Não tinha mais tempo para o seu olhar, e seu falar eu nada ouvia.

Cada despedida fecunda este meu ódio indesejado.
Ódio deste meu eu que insiste em partir.

Disse aquele até breve o mais longo que podia.
Cantado como magia que me leva de volta aqui.
Aqui, onde tudo tem gosto de ti.